
OFICINA LEPEHIS: Teoria e prática da Estética da recepção: um estudo de Os Miseráveis, de Victor Hugo
EMENTA: Hans Robert Jauss, filósofo e historiador, propôs o método de análise literária conhecido como estética da recepção. Em sua aula inaugural em Constança, proferida em 1967 e intitulada A história da literatura como provocação à teoria literária, Jauss argumentou que a análise tradicional das obras literárias – focada no conteúdo, na forma e no gênero, aspectos há muito explorados pelos teóricos – não era suficiente para abarcar toda a complexidade do estudo literário (Jauss, 1967). Nessa aula, Jauss introduziu uma perspectiva diacrônica que permitia analisar a obra pela mobilidade histórica de seu conteúdo, indo além da análise estrutural e sincrônica previamente estabelecida. Ele argumentou que as abordagens formalista e marxista não eram suficientes para uma análise completa da literatura. Segundo Jauss, essas formas de análise estrutural restringiam a obra a pontos e tempos específicos, negligenciando o papel fundamental do leitor, que era, segundo ele, ator principal na atribuição de significado ao texto literário (Jauss, 1990). A partir desse momento de abertura do debate sobre a estética da recepção, outros pesquisadores surgiram com o propósito de aperfeiçoar a metodologia de Jauss. Um dos mais importantes, que focou também na análise do romance, foi Wolfgang Iser, principalmente em seu livro O ato da leitura: uma teoria do efeito estético, publicado pela primeira vez em 1976. Por meio desse livro, Iser buscou desenvolver pontos na estética da recepção, com o objetivo de aprimorar a abordagem metodológica e sua aplicação nos estudos literários — pontos esses que serão abordados no curso proposto em questão. Com isso, partindo dessa abordagem mais abrangente da análise da arte e de sua mobilidade temporal, esses autores - Jauss e Iser - desenvolveram suas perspectivas de análise literária centradas no leitor. Com base nessa metodologia proposta por esses pesquisadores, este curso busca apresentar aspectos específicos e introdutórios da estética da recepção. A ideia é complementar as práticas de estudos literários dos alunos e introduzir novas perspectivas, que são pouco exploradas nos cursos de graduação em História e também pouco exploradas nas pesquisas sobre recepção no Brasil, conforme aponta Zilberman (1999). Este curso visa, portanto, explorar primeiramente o conceito de estética da recepção, conforme trabalhado por Jauss em sua aula inaugural de 1967. O objetivo é explicitar o ponto de vista do pesquisador sobre essa forma de estudo literário e destacar a importância do leitor como agente histórico na interpretação da arte (Jauss, 1994). Dessa forma, será apresentada a perspectiva de Wolfgang Iser sobre o leitor implícito. Essa concepção introduz a ideia de um leitor/receptor histórico, dotado de consciência, cuja vivência prévia – seja por consumo e/ou estudo da arte – influencia a interpretação. Isso demonstra que o receptor não é uma “tábula rasa”. Além disso, Iser sugere que o produtor da obra considere esse leitor ao criar sua arte, permitindo que o receptor interprete e atribua sentido ao conteúdo (Iser, 1996). O objetivo, para além do caráter introdutório, é apresentar uma aplicação metodológica aos alunos participantes da matéria. Para isso, a fim de demonstrar, de forma didática, sua aplicação prática será realizada conforme a análise do livro Os Miseráveis (1862) de Victor Hugo e as páginas do jornal A Cruz (1862), que produziu um grande texto sobre o romance. Assim, uma das aulas será dedicada a discutir uma parte do romance Os Miseráveis (1862) de Victor Hugo, visando fornecer conhecimento prévio sobre o texto que será analisado no jornal A Cruz (1862). Haverá também uma aula demonstrativa sobre como localizar os registros da recepção dessa obra na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Nas últimas aulas, utilizando essa metodologia, será buscada a participação interpretativa dos alunos. O professor disponibilizará páginas do jornal A Cruz (1862) para que os estudantes realizem sua própria interpretação dos textos publicados sobre o livro Os Miseráveis (1862). Essa atividade possibilitará o debate sobre as diversas interpretações possíveis do texto e permitirá que os alunos demonstrem a aplicação prática da estética da recepção.